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Bacalhau assado c/ batatas a murro
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Alheiras c/ grelos
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Pudim Azeitado com azeitonas doces e gelado de azeite
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Gastronomia mirandelense 

Para entender e retratar a nossa memória individual e colectiva, dos aspectos mais humildes e vulgares às actividades mais ricas e ignoradas… para sentir o despertar do campo e alentar o regresso à terra dos sonhos, aos prazeres da simplicidade e à utopia da natureza, nada melhor do que um passeio nutritivo pelo mito ambientalista de toda a Terra Quente Transmontana (…)

A gastronomia mirandelense, de toda a Terra Quente Transmontana, diversificada e rica, personalizada ou tradicional, aldeã ou vileira, está inevitavelmente associada aos saberes e às agruras do mundo rural… à agricultura do talento e da teimosia, à pastorícia dos intermináveis percursos, ao desempenho dos porcos aviandados, à paciência e ao ânimo da caça ou à ilusão da pesca ribeirinha… mas sempre, sempre, de aconchego ao azeite e ao saboreio da cura das azeitonas. Naturalmente, porque a excelência dos mirandelenses – a alheira – não perdoa a carência de um bom azeite, e o regalo dos grelos natalícios, muito menos; naturalmente, porque ninguém, por estas terras, ousa dispensar uma boa encharcada de azeite nas couves pencas dos invernos agasalhadeiros, no erotismo das saladas bravias ou no pico do caldo mais simples, no capricho dos assados festivos ou na desquebra dos cachicos avinagrados… no chiar de um qualquer estrugido ou no torrado do pão meado dos aconchegos ao lume e das primeiras provas do azeite novo. Até as viandas tinham direito ao perfume do azeite! A gastronomia mirandelense, naturalmente, não desobriga, nem alivia, o argumento de que comer sem azeite é comer miudinho…

A cozinha mirandelense, de toda a Terra Quente Transmontana, excede… o quotidiano das «postas», a rotina dos ranchos, as festas do leitão, o ciclo dos cogumelos, a celebração do cabrito e das caçadas, a Páscoa dos folares, o petisco dos tordos azeitoneiros e dos peixinhos do rio, a saudade das cascas, das sopas rijadas, das tibornadas lagareiras… as alheiras e os azedos, os queijos, as azeitonas… mas identifica-se com tudo o que a oliveira dá!

Por isso, nada melhor do que elogiar as muitas memórias fartas de simplicidade, celebrar a complexidade dos sabores, exaltar o imaginário da arte oleagastronómica, reclamar éditos à natureza e procurar o limite do infinito… por aqui, em Mirandela,Terra Olea, na plenitude da sua gastronomia olivícola.

 

O Azeite na nossa cozinha

“Comer sem azeite é comer miudinho” ou “a melhor cozinheira é a azeiteira”… assim diz, com douta sapiência, o nosso povo; porque faz da prática do azeite – não uma insólita extravagância senão a consequência de uma solene e unânime convicção. Inclusive, acredita que o chá de folhas verdeais é bom para os apertos do coração e o bochechar com a água da cura das azeitonas para as dores de dentes…

Assim, se o convívio entre o homem e a oliveira é milenário e pleno de harmonia, talvez, então, o azeite tenha nascido de um acto de muito amor, entre deuses e deusas, para que essa intimidade ficasse perpetuada na nossa memória colectiva. (Vale a pena imitá-los!) E, naturalmente, a oliveira passou a ser o símbolo da vida, da longevidade, da paz, ou da fecundidade da terra; naturalmente, esta ousadia da natureza, guerreira do tempo, inspirou a imortalidade da cultura agronómica e a magnificência do elogio ecológico; naturalmente, a azeitona louvou a singularidade da oliveira e o azeite elevou esse prenúncio, do consolo da luz à sublimação do acto alimentar.

Tal como «o azeite e a verdade vêm sempre ao de cima», também a ciência médica, os nutricionistas, e as indústrias da cosmética e da beleza, se renderam às mais valias para a saúde e às qualidades alimentares do azeite. Afinal, a oliveira até sombra dá!

Goze-se então a aceitação da mesa e louve-se a singularidade do azeite, porque para o prazer do azeite não há castas nem raças, nem ofícios – é para todas as idades, para todas as condições, para todos os países, para todos os dias; pode associar-se a todos os demais prazeres e queda-se por último para consolarmos a perda de outros. E saiba-se que o azeite – com perdão – é o amante das comidas que os afortunados estômagos transcendem ao prazer da mesa. Afinal, «a oliveira dá-nos azeitona, a azeitona dá-nos azeite, o azeite dá-nos luz na candeia, saúde no mal e gosto no prato».
Entendam, ainda, a sabedoria popular quando se refere a uma pessoa inteligente, e sentencia: «aquele parece que bebe azeite…azeite do novo». Que gente sábia é esta!.. E que assim continue!

A oliveira e o azeite são, sem dúvida, uma parte da história da humanidade, da nossa história, na memória cultural e da paisagem … a gratidão e a excelência da natureza… a mestria e a simplicidade da arte popular… e dos mais promissores produtos turísticos para a região de Trás-os-Montes e Alto Douro.

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