
Mirandela / Acolhimento
Abrimos a janela e o campo entra sem pedir licença. Como uma manta de retalhos, este horizonte que vai para além dos montes indica-nos auto-suficiência, que alguns podem interpretar como isolamento e outros como lugar de passagem e acolhimento. Esta é a gramática e a síntese da paisagem transmontana, que marca a sua presença sobre as terras vermelhas, advertindo o viajante que está a entrar em Trás-os-Montes.
Esta variedade na paisagem estende-se ao resto das coisas, cuja interacção é notória. De tal maneira que uma antiga moagem se transforma num lagar. Assim vai nascer o Museu da Oliveira e do Azeite de Mirandela.
Alimentos e frutos são contagiados por este tipicismo indomável. As alheiras são famosas, mas o conjunto dos vinhos também levanta a voz, o azeite põe o seu grito no ar, as couves encabeçam a revolta das verduras, enquanto os pomares se inquietam e as nuvens se preparam para deixar cair a chuva caprichosa. Do fumo das chaminés sai um livro escrito em folhas de oliveira, como complemento natural da cozinha transmontana. Lista de receitas com azeitonas e azeite. Amêndoas com azeite, pasta de azeitonas, pão de azeite, truta com azeitonas, tordos com azeitonas, bombons de azeite...
Os azeites transmontanos estão certificados com a denominação de origem que tem o seu nome. As variedades de azeitona que predominam são a cobrançosa, madural, verdeal transmontana, cordovil, negrinha de Freixo e outras convidadas, tais como, a carrasquenha, redondil, redondal, bical, etc.
Uma Rota do Azeite guia o visitante através da região transmontana, seguindo o fio dourado de um azeite de notas maduras e frutos doces, penetrante de frutos secos, avelãs, amêndoas e nozes… sem esquecer os cogumelos, o mel, as castanhas, os queijos de ovelha, o artesanato, na forma têxtil, a cerâmica, cestaria, os foles, bonecos...
Passear é a primeira tarefa do viajante. Em Mirandela esse prazer é irrecusável perante a oferta generosa desta cidade jardim, diáfana e esplêndida. Mirandela, cidade fluvial abrindo portas ao vento oeste. Mirandela de águas tranquilas, cidade jardim, cidade ponte. Sebes de oliveiras ajardinadas, roseiras e oliveiras abraçadas, esculturas de bronze em praças e jardins – final de uma linha subtil de edifícios rendidos ao correr da água do rio Tua.
Do meio da “Ponte Velha”, com os seus vinte arcos todos desiguais, nota-se logo que Mirandela é um dom do rio Tua e que a cidade abraça o rio e daí tira a beleza e o encanto.
Olhar de frente para o Palácio dos Távoras, edifício ao gosto da época – séc. XVII – e passear pelos jardins do Parque do Império para ver uma das mais belas obras da arquitectura moderna, do início da segunda metade do séc. XX, a sede do Sport Clube de Mirandela, é o preparo mais adequado para o encontro com os olivais do passado por Terras de Ledra.
Restaurantes, casas de comida, agroturismo, são refúgio para o descanso, lugar onde saborear muitos outros produtos de qualidade que devem acrescentar-se aos já mencionados.
Mas o seu orgulho, o seu principal recurso, além da alheira e das suas gentes, é a oliveira e o seu azeite. Vale a pena, então, partir à descoberta desta vaidade mirandelense. Assim…
